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Merde

sexta-feira, 12 de Abril de 2013 | 09:44

Contos de Merda

 

Bonne merde pour vous. A tradução literal dessa frase é “boa merda pra você”. Não se ofenda, trata-se de uma saudação largamente utilizada por atores antes de suas apresentações teatrais. É uma espécie de mantra, ou seja, de estímulo ao controle da mente; da sintonia com a frequência do amor; ao recolhimento e tranquilidade. Naturalmente que essas são pré-condições a uma incensurável performance teatral.

As versões sobre as origens dessa saudação são muitas. Eu prefiro a francesa, segundo a qual no século XIX ou meados do século XX, aqueles que interpretavam no palco o que gostaríamos de fazer na vida, utilizavam a expressão “merda”, sempre antes da entrada em cena, com o fito de desejar boa sorte aos seus parceiros, particularmente aos novatos. A origem da palavra provém do latim “merda” que em sentido estrito é o resultado do processo digestivo e refere-se às fezes expelidas por um organismo vivo.

Feitos esses esclarecimentos semânticos, importa dizer em que circunstância a expressão “merda” passou a significar boa sorte. É que naquela época, fins dos anos de 1800, a aristocracia parisiense, reforçada pela ascensão da classe média e afirmação político-social da alta burguesia, habituada a frequentar teatros, tinha como principal meio de locomoção as carruagens tracionadas por cavalos que se amontoavam em frente ao majestoso Palais Garnier. Naturalmente que por conta disso ali remanescia um grande volume de merda que em síntese tornou-se o indicativo do sucesso alcançado pela exibição teatral. Quanto mais merda, mais público, mais sucesso. Aí está a explicação mais razoável para a origem da saudação “merde”, boa sorte. Convém dizer que há outras, duas pelo menos. Uma de que surgiu na Grécia antiga por conta do hábito de jogarem merda nos atores em razão de sátiras que faziam aos políticos e a determinadas classes sociais. A última é poética e improvável. Diz a lenda que um ator francês ao dirigir-se para o teatro para apresentar a peça mais importante da sua vida, após muitos incidentes no percurso, na chegada pisou inadvertidamente num monte de merda. Contudo, subiu ao palco e fez a sua melhor apresentação, festejada pela critica e consagrada pelo público, daí porque merda passou a ser sinônimo de boa sorte. Ainda, entre nós, prevalece o adágio popular de que pisar na merda dá sorte.

A palavra merda é a mais rica da língua portuguesa. Pode-se afirmar, sem exagero, que é muito versátil e funciona como um coringa. A seguir colecionam-se alguns exemplos.

Como indicação geográfica: onde fica essa merda? Vá à merda! Como substantivo qualificativo: você é um merda! Como indicador de especialização profissional: ele só faz merda. Como indicador visual: não se enxerga merda nenhuma! Como elemento de indicação do caminho a ser percorrido: por que você não vai à merda? Como especulação de conhecimento e surpresa: que merda é essa? Como constatação da situação financeira de um indivíduo: ele está na merda. Como indicador de ressentimento natalino: não ganhei merda nenhuma de presente! Como indicador de admiração: puta merda! Como indicador de espécie: o que esse merda pensa que é? Como indicador de continuidade: na merda de sempre. Como constatação científica dos resultados da alquimia: tudo o que ele toca vira merda! Como classificação literária: textinho de merda! Como constatação de fato: eu não sou pouca merda. Como indicativo de ocupação: para você ter lido até aqui é sinal que não está fazendo merda nenhuma.

Por fim, para que o mantra surta seus efeitos, uma recomendação: sempre que alguém lhe desejar “merda” não diga obrigado ou de nada, responda apenas “merda” ou fique calado.


Escrito por Delamar Corrêa Mirapalheta

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Alberto Amaral Alfaro

natural de Rio Grande – RS, advogado, empresário, corretor de imóveis, radialista e blogueiro.

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